terça-feira, 22 de dezembro de 2015

caderninho


trarei sempre
no bolso do casaco
um caderninho
onde anotarei
os ciclos das marés,
os vai-e-vens das nuvens
e ainda os vice
e os versa

trarei sempre
no coldre do cinturão
um caderninho
de papel pardo
onde anotarei
teus sorrisos
e outros esgares
de que às vezes
nem conta te dás

trarei sempre
nos entrefolhos da alma
um caderninho sebento
sedento de receber nele
as anotações que farei
sobre o movimento dos astros
e sobre a densidade
das tempestades de areia
e, ainda,
sobre a humidade relativa do mistral

trarei sempre
esse caderninho
seja onde for

mas terei sempre
com que escrever?

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

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