sábado, 26 de dezembro de 2015

nas paredes da tua alma


nem sei bem se te procurei,
se fui ou não
encontrar-me contigo
num local não marcado,
a uma hora não marcada

lembro-me que levei na mão
um rouxinol que me adoptou,
e um ramo de flores
roubadas no jardim público
que deixei penduradas no teu portão
e ainda uma mão-cheia
de águas-furtadas
onde habito em ti

lembro-me

também me lembro
que o sal não sabia a mar
(soubesse ele amar e saberia a mar)
mas recordo que o mar sabia a sal,
coisa estranha...

lembro-me

e lembro-me bem
do sorriso luminoso
que me entregavas
mesmo nos fins de tarde
em que ainda
não nos tínhamos conhecido

e sempre que disso
me lembro,
soam-me nas memórias
batuques frenéticos
e cheiros de árvores
que nunca me lembro
de ter vivido em vida

eventualmente,
poderei ter passado por ti
e colhido de ti uma flor,
daquelas com que enfeitas
os cabelos que te vestem

será?
talvez seja...

mas, acima de tudo,
lembro-me
que tatuei algo
que julgo ser belo
nas paredes da tua alma.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

natimorto


a luz do dia
recém-nascido
não apaga
a defunta noite

tem sido esse,
o ciclo:
nascer e morrer

e a memória viva
dos mortos sempre vivos
dilacera a memória inerte
dos vivos sempre mortos

para estes,
o dia é um natimorto,
a noite, uma inexistência

será a noite o local
onde sepultaram a alma
do dia que nasceu morto?

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia

alma cigana


e que tal
se despisses
as roupas apertadas
com que deixaste ataviar
a tua alma cigana?

e se saísses,
furibunda e perigosa,
desnuda pela cidade
no desassossego
da corrente dos rios
ou no nervosismo
do cio dos loucos?

e que tal
estenderes teu corpo
feito desejo de águas azuis
na relva da margem de ti mesma?

um dia, verás,
desaguarás num mar só teu,
um mar nu de sargaços,
quando estiveres nua de moliços,
esses moliços que te prendem
a alma
e que não a deixam voar

e, nesse momento,
o esperma das ondas
inundará teu ventre de mãe,
tuas fecundas portas da vida
e sentirás o desejado arrepio
que só os escolhidos sentem
ao passar o portal
da dimensão tão por conhecer.

(c) SPA2105 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

pijama de fábulas


sei que um dia
deixarás pendurado
na persiana da minha janela
o teu aroma de mar
que transcende
as flores que roubo
dos jardins públicos
sob os lençóis
da noite desprevenida


e os gemidos das algas
ecoarão subtis
nas manhãs por amanhecer

e os raios de sol
furiosos
romperão as pálpebras do dia
rumo ao peito das marés

e anémonas sem dono
parirão poemas épicos
que poetas sem escrúpulos
escreverão a giz vermelho
nas estradas dos mortais

será então, finalmente,
que as gaivotas voarão
num voo rasante
sobre os canibais
que se lambusam
com a esperança dos demais

certezas?

apenas uma
a do sabor dos teus olhos
num pijama de fábulas
com que me visto para dormir.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

abraço


nesse abraço onde
cabem todas as histórias do mundo
e todas as orações por rezar
e todos os deuses por idolatrar
e todas as águas por beber
e todos os bosques por pernoitar
e todo o nós por descobrir
e todos o idiomas por falar.


(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

a farinha da areia


invades-me a noite
com a macieza do sorriso
que te escuto sorrir,
conchinha de praia
por abrir ainda

e na mesma noite
voas para países
cujos nomes nem sequer
foram ainda decididos

procuras o quê,
ao certo,
entre a farinha da areia
e as gotas do mar
que te fez e te trouxe?

se calhar,
buscas caçar todo o mar
na palma da tua mão de menina

um dia, acredita,
conseguirás
e eu talvez venha
até à fímbria
ao debrum do mar
certificar-me de que
todo o oceano
que lograres colher
será devolvido à água,
seu elemento,
teu elemento.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

das mensagens que chegam à praia



ela envia-me reticências
que vão sempre dar a um coração
que só diz isso mesmo:
coração...

e tanto diz, esse coração!

tanto expressa sem nada dizer
(ou, se calhar, dizendo tanto:
dizendo tudo...)

mas que sei eu?
nada, deveras

e continuo a enviar-lhe,
também,
palavras organizadas em algo
com a pretensão de ser poema...

e ela, mesmo assim,
continua a enviar-me mensagens
em garrafas que o mar me traz
à fímbria da praia onde a espero.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

ondas


as ondas que o mar enfeitam
vieram pela calada
no escuro da noite calada
molhar meus tornozelos

enterrados na areia
e senti-te agarrando-me
com teus punhos,
as pulseiras tilintando
com o marulhar das ondas,
bailando sem se soltarem

e ali fiquei,
agarrado por teus punhos
enquanto,
nos teus seios,
baloiçavam os balangandãs
e os corais que o vento agita
a coberto de olhares cúpidos.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

de levezinho



chegou de levezinho
e bem levezinho
pisou na areia tenra

sentou-se a olhar o mar

sentei-me a seu lado

vimos lá-longes bem perto
e umas quantas andorinhas em vôo lesto

essa foi uma noite marinheira
como todas as noites, aliás
pois a noite tem nome de mulher

e o mar inundou-nos os poros das almas
e ensaboou com sua espuma
a pele de alguns sonhos
ainda então por sonhar

chegou de levezinho
e assim permaneceu

leve
como as penas que voam ao vento,
rodopiam no ar e buscam poisos outros

alguma delas talvez voltem
ao chão onde dormitavam
antes do vento as levar

outras levarão consigo
aquele pedaço de chão
onde pousaram agarrado às raízes
que elas criaram
pois transformaram-se
em esbeltas plantas multicores

plantas que cá não há.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

os lábios da maresia



faz-me falta o litoral e,
no entanto,
tenho o mar em mim

faz-me falta o litoral e,
contudo,
não sei nadar

faz-me falta o litoral e,
no entanto,
o salitre entra em meus poros

faz-me falta o litoral
tenho saudades
dos teus lábios,
maresia.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

olheiras


será, pois, como dizem,
que esta insónia que me consome
é sinal que estou acordado
nos sonhos dum outro alguém?

fosse isso e eu sairia desse sonho
e acordaria esse alguém
e sairíamos montados
na esteira dum cometa,
no cabo duma vassoura,
à boleia de magias
rumando a ilhas de prata
suspensas no firmamento

e será que isso que dizem,
sobre anémonas brilhantes,
sobre caprichos do mar,
ou estrelinhas-do-mar,
é real ou só crendice?

fico-me no que parece
e, assim sendo, apetece...
vou lá e colho uma flor,
uma qualquer flor que ela sonhe,
roubo-a de um jardim público
e espeto-lha nos cabelos

ou deixo, apenas,
que ela aceite com seu olhar
este algo que lhe dou

mas eu apenas sou
aquele que por detrás deste sorriso
que esboço como oferenda
sofre por vezes as penas
de não ter com quem chorar
uma lágrima que seja,
furtiva ou desejada

e, assim,
rasgo a insónia com poemas
e outros escritos escrevendo
nas paredes desta alma
grafitos que se me antolham
às vezes com rima forçada,
outras vezes em pé-quebrado.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Nota Sobre a Maresia"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

sal


passas-me o sal,
por favor?

é para por na boca,
para fazer em mim
toda a água do mar

SPA2015, Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

aquela breve eternidade


eu sei que estás aí
desse lado

sinto-te aí,
a cavalo nas ondas
e nas figuras de estilo

apascentas rituais
que os mortais
não vislumbram
pois deambulam
pelas dunas desfeitas
que ventos elísios
sopraram furiosos

basta já
de alucinados afazeres
em que te encontras contigo
nas esquinas de ti,
tu que até nem tens esquinas
pois tens a alma
mais cheia de curvas
que conheço

sai para a orla do mar,
anda lá...

vai para a fímbria das águas
que cedo ou tarde
purificarão nossas cinzas,
nossos restos de nós
sem a agonia
de estarmos sós

e fará sentido, então,
falar de amor
num fim de tarde
de sorrisos leves
e de afagos ternos
onde te verei
nua de ti mesma
placidamente esperando
uma carícia nesse teu ventre
de amazona
ou
vestal

e sairei, nesse dia,
a comprar um jornal
para me certificar
se a manchete
fala de nós,
de nós os dois

pois parecer-me-á
tão irrealmente são
aquele beijo
com que nos invadimos,
com o qual nos inundámos
daquela coisa furiosa
a que não descobrimos
nem nome nem apelido

e nem sequer uma alcunha
ou nome de guerra

mas onde saborosamente
nos deixámos estar
durante uma breve eternidade.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

vou aproveitar


vou aproveitar
este momento em que estou acordado
para sonhar um pouco.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

acariciar um sonho teu


vou sonhar um sonho
e dou-te metade, queres?

afinal não:

de que serve um sonho pela metade?

e de que serve
dar-te metade dum sonho meu?

é talvez
a única coisa a que faz sentido
chamar de propriedade privada,

isso do sonho...

quando muito,
deixa-me sonhar
com acariciar um sonho teu.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

a sede de sal

poderias, talvez,
chamar maresia ao aroma
que alguma terra firme traz
às tuas narinas
e à tua pele sequiosa de sal,
em madrugadas inventadas
em busca da roda
ou na descoberta do fogo

poderias, também
crer que os relâmpagos
procedem de bélicas nuvens
de sinal contrário
em orgástico conflito
em pleno céu

e poderias, igualmente,
considerar um beijo ardente
ou apenas o roçagar dos lábios,
ou - talvez e apenas -
um olhar trocado comigo
em breve fim de tarde
numa esplanada de verão
ou nas areias da praia
escutando o mar

poderias,
é certo...

eu sei que
tu sabes disso...

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

a pele das palavras


falas
como se as palavras tivessem pele
como se me deixasses
afagá-las.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

rastejam serpentes despertas

rastejam serpentes despertas
em transumâncias diversas
transfiguradas de estios
e perfumadas por lírios
ou avulsos malmequeres
mas os gerúndios não brilham,
onde os andrajos cintilam,
e a má-sorte impera
pois a fortuna se ausenta

e às limalhas da praia
chegam garrafas vazias,
arrotam gaivotas suicidas,
uma fragata naufraga
ao som duma ária barroca,
um diácono inaugura
coxas de seminarista,
um pedestal já simula
arrear o seu boi-ápis

e onde chegam, convulsas
as tosses sem polidez
dos que povoam as ruas?

chegam a ouvidos moucos
de quem ali os plantou,
de quem neles apostou
sua subida inclemente,
sua ascenção obscena

e as cobras proliferam
ao toque dos carrilhões
das catedrais erigidas
para adoração dos fieis
desta estranha religião
que adora o deus da fome
e bendiz a sordidez

e a cada passo dado,
tropeça-se num degrau
em que descemos, descemos
cada vez mais sepultados
pela própria demissão
de quem se deixa enterrar.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

caderninho


trarei sempre
no bolso do casaco
um caderninho
onde anotarei
os ciclos das marés,
os vai-e-vens das nuvens
e ainda os vice
e os versa

trarei sempre
no coldre do cinturão
um caderninho
de papel pardo
onde anotarei
teus sorrisos
e outros esgares
de que às vezes
nem conta te dás

trarei sempre
nos entrefolhos da alma
um caderninho sebento
sedento de receber nele
as anotações que farei
sobre o movimento dos astros
e sobre a densidade
das tempestades de areia
e, ainda,
sobre a humidade relativa do mistral

trarei sempre
esse caderninho
seja onde for

mas terei sempre
com que escrever?

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

não me tragas novas


não me tragas novas
da frente de batalha
porque o meu lugar
será lá, junto a ti

não supliques
aos teus deuses
clemências e farrapos
porque o vento
leva as preces

não te importes
com o suão
porque ventos
sempre os houve
e haverá

não fuziles alvoradas
com fogachos macilentos
dos teus olhos ensonados

não prescrutes no horizonte
barcos à vela e chalupas
ou faluas sem arrais

não acendas em segredo
chamas densas e tropéis
nas escarpas afiadas

traz à rede, mesmo rançosos,
os dinheiros - eram trinta,
salvo erro -
que pagaram àquele outro

traz tudo o que possas
no teu alforge mal amanhado,
na algibeira por remendar,
no bolso onde guardavas
o relógio do teu avô,
na mochila que usavas
no último ano do liceu

traz tudo o que possas!

mas não me tragas novas
da frente de batalha
porque o meu lugar
será lá, junto a ti

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Dick Emanuelsson

foz


e quando o poema,
rígido sob a canga da erudição e da técnica,
delas se liberta,
toma os destinos nas suas mãos
e flui como um rio
desaguando-se mulher?

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

cais


mais que o timão, a bússola,
o cabrestante ou a bujarrona,
o cais revela ser
a mais afectuosa ferramenta
das artes de marinharia
pois tem a doce vocação
do aconchego das embarcações.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes

regressar


regressar
como quem precisa de fugir
dum cais que não existe,
sentir as pedras da rua
palpitando em teu peito,
no peito onde um dia
encarceraste teu coração
alado e vadio,

não esperes que uma nau
te traga solstícios,
pois só os equinócios
fecundam paixões,
no cio do calor dos corpos
ou no toque dos dedos
nas peles que se conclamam
debaixo da coberta partilhada

voa, montada num arco-íris
que te dê santo e senha,
que te traga a sanha da vida
na ponta da língua que queres beijar

e as areias contarão
tua partida, algum dia -
- talvez numa noite iluminada
em que a lua pontifique
em vez da chuva, ciumenta,
que aduba tuas lágrimas.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

veio daquela pátria com cheiro a mar


talvez uma onda a tenha trazido,
vinda daquela pátria,
aquela com cheiro a mar, sabem?
aquela pátria de que se sente pertença
porque é uma pátria imensa
que a tantos povos abraça

talvez uma onda
a tenha trazido,
talvez...

ou talvez apenas
tenha nascido assim,
ataviada de oceanos.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

sorriso de espuma


não deixes que o teu sorriso
seja espuma que mascara
as lágrimas da alma
que em vão pretendes esconder
para que ninguém observe
a nudez que a veste

veste o teu corpo de mar
e chora
e enquanto o teu corpo
se atavia de água
a tua alma fornece ao oceano
o sal que ele te empresta, generoso.

SPA2015, Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

a certeza da tormenta

esta companha é feita de sabores
e olhares no futuro
que transcendem os costados
vestidos de morte
e de dúvida
na fragilidade dos dias
em que a tormenta é única 

certeza.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Pedro Ribeiro

espuma


e ela, indómita,
bailava sobre a espuma
enquanto esperava
que o sol, furioso,
comparecesse ao seu chamado.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Pedro Ribeiro

outros destinos


das muitas certezas que o mar traz à praia
é falar-nos de outros destinos.

assim saibamos empreender viagem,
assim saibamos fazer de nós
o nosso próprio destino.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Pedro Ribeiro

na demanda do sono


ela buscava algo,
não sabia bem o quê,
nessa sua demanda do sono:

o sonho de
um dia
poder transformar-se
em cristais de orvalho
que de manhã repousam nas flores,
mesmo que o mar que ansiava
fosse fraco de jardins em seu redor.


quando acordou
não se viu como gotas de orvalho
mas espreguiçou-se esticando as pétalas
para o dia que nascia,
impetuoso.

esperava-a.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Pedro Ribeiro

a primeira morada


eu sabia ou suspeitava
que ela buscaria a orla do mar
de onde emergiu, parida por ele
quando se libertou das escamas
e da cauda de sereia
o regresso ao ventre materno
é o canto que escutamos
ao longo da vida,
ao longo das vidas
e lá desejamos entrar,
lá desejamos habitar,
esconder-nos dos predadores
e até de nós mesmos
e por lá ficou ela,
aconchegada no útero líquido,
que lhe serviu de primeira morada.

dizem
que não há amor
como o primeiro amor
talvez...

mas o mais certo
é não haver morada
como a primeira morada.
e dessa morada
ela sempre foi escondida namorada.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Pedro Ribeiro

aves


quando nos sonhamos de aves
queremos sobrevoar o tudo,
queremos ser viandeiros
ou peregrinos alados,
confundir falsos profetas
e exumar os cadáveres
sepultados no mar
e acender luminárias
nas nuvens adjacentes
às nossas rotas errantes

queremos que ninguém saiba
o gosto das nossas asas
e não queremos que cheirem
os olfactos que colhemos,
como se fosse um beijo
roubado nesse arroubo.

mas, apesar de tanto voo
e horizontes alcançados,
por que será que o sol
fica sempre tão distante?

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Foto:
(c) Pedro Ribeiro