sábado, 26 de dezembro de 2015

alma cigana


e que tal
se despisses
as roupas apertadas
com que deixaste ataviar
a tua alma cigana?

e se saísses,
furibunda e perigosa,
desnuda pela cidade
no desassossego
da corrente dos rios
ou no nervosismo
do cio dos loucos?

e que tal
estenderes teu corpo
feito desejo de águas azuis
na relva da margem de ti mesma?

um dia, verás,
desaguarás num mar só teu,
um mar nu de sargaços,
quando estiveres nua de moliços,
esses moliços que te prendem
a alma
e que não a deixam voar

e, nesse momento,
o esperma das ondas
inundará teu ventre de mãe,
tuas fecundas portas da vida
e sentirás o desejado arrepio
que só os escolhidos sentem
ao passar o portal
da dimensão tão por conhecer.

(c) SPA2105 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

Sem comentários:

Enviar um comentário