terça-feira, 22 de dezembro de 2015

aquela breve eternidade


eu sei que estás aí
desse lado

sinto-te aí,
a cavalo nas ondas
e nas figuras de estilo

apascentas rituais
que os mortais
não vislumbram
pois deambulam
pelas dunas desfeitas
que ventos elísios
sopraram furiosos

basta já
de alucinados afazeres
em que te encontras contigo
nas esquinas de ti,
tu que até nem tens esquinas
pois tens a alma
mais cheia de curvas
que conheço

sai para a orla do mar,
anda lá...

vai para a fímbria das águas
que cedo ou tarde
purificarão nossas cinzas,
nossos restos de nós
sem a agonia
de estarmos sós

e fará sentido, então,
falar de amor
num fim de tarde
de sorrisos leves
e de afagos ternos
onde te verei
nua de ti mesma
placidamente esperando
uma carícia nesse teu ventre
de amazona
ou
vestal

e sairei, nesse dia,
a comprar um jornal
para me certificar
se a manchete
fala de nós,
de nós os dois

pois parecer-me-á
tão irrealmente são
aquele beijo
com que nos invadimos,
com o qual nos inundámos
daquela coisa furiosa
a que não descobrimos
nem nome nem apelido

e nem sequer uma alcunha
ou nome de guerra

mas onde saborosamente
nos deixámos estar
durante uma breve eternidade.

(c)SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

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