quinta-feira, 3 de março de 2016

o fim do mar


finalmente
sento-me nas areias
onde sonhei amar-te em sossego
e desesperado pela espera de ti

e uma onda leva-te,
súbita

e vais agarrada
ao costado dum barco
para um lá-longe
onde crescem as flores
e as cores
que contigo quis ver

e os pores-de-sol
em que te lobrigarei
serão cáusticos e violentos
porque não és mais
o teu sorriso
nem a tua melena revolta.

espero os teus caracóis
nalguma onda arrependida
que de novo
te traga à fímbria
onde fiquei
espreitando o mar.

(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

terça-feira, 1 de março de 2016

mar imenso


sabias, ó mar imenso,
que toda a água que te constrói
também traz no seu promíscuo ventre
histórias de vidas buscando vidas noutros portos?

sabias disso, mar imenso?

sabias que nas barrigas de barcaças,
batéis e faluas,
viajam gentes com a fé
de encontrar poiso em prometidas terras?

sabias disso, mar imenso?

e quantos crentes de ti e gentios
tuas águas abraçaram,
tuas águas engoliram,
apenas para que a sorte
lhes fosse provida?

sabias disso, mar imenso?

sabias que aqueles
que te oferendam presentes
de boa fé
são prisioneiros de vidas,
de outras vidas
que sugam as suas vidas?

são reféns de sonhos crus
(aqueles sonhos que
só os desesperados
conseguem sonhar)?

ah...
creio bem que não sabias tal,
mar imenso...

também sabias
que
quando uma dessas tragédias ocorre
há sempre um poeta
ou alguém armado em poeta
que rapa da pena ou do portátil
para lavar a sua merdosa consciência
pretendendo agitar ondas de solidariedades?

sabias disso, mar imenso?

e sabias, também,
que todos esses espoliados
tinham rosto,
filhos,
pais,
irmãos e irmãs?

e todos eles tiveram
vontade de abraçar
os entes queridos
quando a água irrompeu
nas suas goelas
e alagou os seus pulmões...

sabias disso, mar imenso?

não sabias.

claro que não sabias...

és sacana, mar imenso...

mas todos os elementos o são,
assim,
sacanas como tu...

se não, repara:

quem não encontra poesia
nas tuas ondas,
no crepitar do fogo na lareira,
no uivo do vento lá longe?

é bonito, não é?

mas quem consegue
de limpa consciência
achar a beleza da musa
quando os elementos
são atacados
pelas suas fúrias assassinas?

só mesmo os poetas doidos,
mar imenso...

só mesmo os poetas irresponsáveis,
aqueles que esquecem
que há dedo dos homens
a empurrar gente para a morte,
para o degredo,
para a indignidade,
para a dor...

mas dessa dor
não falam os poetas
pois escandalizam
os salões de chá
das metrópoles

e ainda são capazes
de afugentar os croquetes
dos palacetes
para onde são convidados
a abrilhantar aristocracias falidas
e falsos futuros mecenas,
em vernissages onde saciarão
aquilo a que chamam fome,
palavra que usam adrede
em metáforas de barbecue
ou figuras de estilo pioneiras,

sem saberem,
pobres coitados,
que a fome é muito mais
do que baixo teor
de açúcar no sangue

ó mar imenso!...

leva contigo, a banhos, alguns deles,
conjuntamente com quem lhes promove
as suas fúteis existências

e deixa a poesia
liberta dos poetas que calam.

e já que gostas de inundar,
inunda-nos de gente
que saiba ter no peito
aquela coisa que bate
pelo seu par,
pelo seu igual.

percebeste, ó mar imenso?

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes 

in "Notas Sobre a Maresia"

nudez ritual


as palavras
que semeias na estrada
são percorridas
pelas minhas janelas
que dão para a rua,
ávidas de ti

despes-te de atavios
e inundas-te de metáforas
cobrindo as zonas erógenas
da tua alma

em desespero tento
ler-te

e, quando logro fazê-lo,
tenho ganas
de soletrar
tua nudez.

(c)SPA2014 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

domingo, 28 de fevereiro de 2016

e a tua pele de viagens feita


venho pela madrugada
atrás dum aroma de sal
que semeaste na memória

e a tua pele de viagens feita
atravessa os tempos revoltos
sem a magreza da realidade

um amanhã de pérolas
choradas por ostras sem sono
devotar-te-á mundos sonhados

e pelo decote do teu vestido
adivinhar-se-á a alma nua
de quem tanto tem para dar.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

na recolha do cordame

 
um passo dado
na direcção de cassiopeias
um golpe de asa
voado na queda do ninho

quisera ser barco,
teu barco,
marinheiro,
não armador,
contigo partilhar a safra
da companha sofrida

e acostar em cais longínquos
que não servissem
meramente
de poiso inútil
mas de apeadeiro
entre viagens que urgem

e recolher o cordame
a pulso
pois só a pulso
se faz a companha aludida

e sentir tua alma
ora doce ora salgada
na ponta dos meus dedos férteis

e provar ao incréu que sou
esta fé que carrego no peito
e que deixaste as gaivotas
recolherem em seus bicos
enquanto meu corpo
na praia
espera ser devorado,
pasto que é de caranguejos
e lobos da costa.

SPA 2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

deserto de âmbar


não há passaredo
neste deserto de âmbar

há espinheiros e sargaços secos
num rio sem leito nem água

não há orgasmos
nesta praia por explorar
e por sentir

ao longe
avistam-se embarcações
sem mestre-de-leme
nem astrolábio

queria
agora
já
ter teus lábios
para neles navegar

à vista
que ainda é a melhor forma que eu
embarcadiço sem nau
conheço
por te ler
sem cartas de marear

soubera eu
saber-te ler
interpretando os astros

para te navegar
bolinando

assim
de longe.

SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"