domingo, 28 de fevereiro de 2016

e a tua pele de viagens feita


venho pela madrugada
atrás dum aroma de sal
que semeaste na memória

e a tua pele de viagens feita
atravessa os tempos revoltos
sem a magreza da realidade

um amanhã de pérolas
choradas por ostras sem sono
devotar-te-á mundos sonhados

e pelo decote do teu vestido
adivinhar-se-á a alma nua
de quem tanto tem para dar.

(c)SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

na recolha do cordame

 
um passo dado
na direcção de cassiopeias
um golpe de asa
voado na queda do ninho

quisera ser barco,
teu barco,
marinheiro,
não armador,
contigo partilhar a safra
da companha sofrida

e acostar em cais longínquos
que não servissem
meramente
de poiso inútil
mas de apeadeiro
entre viagens que urgem

e recolher o cordame
a pulso
pois só a pulso
se faz a companha aludida

e sentir tua alma
ora doce ora salgada
na ponta dos meus dedos férteis

e provar ao incréu que sou
esta fé que carrego no peito
e que deixaste as gaivotas
recolherem em seus bicos
enquanto meu corpo
na praia
espera ser devorado,
pasto que é de caranguejos
e lobos da costa.

SPA 2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

deserto de âmbar


não há passaredo
neste deserto de âmbar

há espinheiros e sargaços secos
num rio sem leito nem água

não há orgasmos
nesta praia por explorar
e por sentir

ao longe
avistam-se embarcações
sem mestre-de-leme
nem astrolábio

queria
agora
já
ter teus lábios
para neles navegar

à vista
que ainda é a melhor forma que eu
embarcadiço sem nau
conheço
por te ler
sem cartas de marear

soubera eu
saber-te ler
interpretando os astros

para te navegar
bolinando

assim
de longe.

SPA2016 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

sábado, 26 de dezembro de 2015

nas paredes da tua alma


nem sei bem se te procurei,
se fui ou não
encontrar-me contigo
num local não marcado,
a uma hora não marcada

lembro-me que levei na mão
um rouxinol que me adoptou,
e um ramo de flores
roubadas no jardim público
que deixei penduradas no teu portão
e ainda uma mão-cheia
de águas-furtadas
onde habito em ti

lembro-me

também me lembro
que o sal não sabia a mar
(soubesse ele amar e saberia a mar)
mas recordo que o mar sabia a sal,
coisa estranha...

lembro-me

e lembro-me bem
do sorriso luminoso
que me entregavas
mesmo nos fins de tarde
em que ainda
não nos tínhamos conhecido

e sempre que disso
me lembro,
soam-me nas memórias
batuques frenéticos
e cheiros de árvores
que nunca me lembro
de ter vivido em vida

eventualmente,
poderei ter passado por ti
e colhido de ti uma flor,
daquelas com que enfeitas
os cabelos que te vestem

será?
talvez seja...

mas, acima de tudo,
lembro-me
que tatuei algo
que julgo ser belo
nas paredes da tua alma.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

natimorto


a luz do dia
recém-nascido
não apaga
a defunta noite

tem sido esse,
o ciclo:
nascer e morrer

e a memória viva
dos mortos sempre vivos
dilacera a memória inerte
dos vivos sempre mortos

para estes,
o dia é um natimorto,
a noite, uma inexistência

será a noite o local
onde sepultaram a alma
do dia que nasceu morto?

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia

alma cigana


e que tal
se despisses
as roupas apertadas
com que deixaste ataviar
a tua alma cigana?

e se saísses,
furibunda e perigosa,
desnuda pela cidade
no desassossego
da corrente dos rios
ou no nervosismo
do cio dos loucos?

e que tal
estenderes teu corpo
feito desejo de águas azuis
na relva da margem de ti mesma?

um dia, verás,
desaguarás num mar só teu,
um mar nu de sargaços,
quando estiveres nua de moliços,
esses moliços que te prendem
a alma
e que não a deixam voar

e, nesse momento,
o esperma das ondas
inundará teu ventre de mãe,
tuas fecundas portas da vida
e sentirás o desejado arrepio
que só os escolhidos sentem
ao passar o portal
da dimensão tão por conhecer.

(c) SPA2105 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"

pijama de fábulas


sei que um dia
deixarás pendurado
na persiana da minha janela
o teu aroma de mar
que transcende
as flores que roubo
dos jardins públicos
sob os lençóis
da noite desprevenida


e os gemidos das algas
ecoarão subtis
nas manhãs por amanhecer

e os raios de sol
furiosos
romperão as pálpebras do dia
rumo ao peito das marés

e anémonas sem dono
parirão poemas épicos
que poetas sem escrúpulos
escreverão a giz vermelho
nas estradas dos mortais

será então, finalmente,
que as gaivotas voarão
num voo rasante
sobre os canibais
que se lambusam
com a esperança dos demais

certezas?

apenas uma
a do sabor dos teus olhos
num pijama de fábulas
com que me visto para dormir.

(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"