Maresia é nome de mulher. Mulher que vem do mar. Mas que também por ele é atraída. Como eu gostaria de ser o mar...
terça-feira, 1 de março de 2016
mar imenso
sabias, ó mar imenso,
que toda a água que te constrói
também traz no seu promíscuo ventre
histórias de vidas buscando vidas noutros portos?
sabias disso, mar imenso?
sabias que nas barrigas de barcaças,
batéis e faluas,
viajam gentes com a fé
de encontrar poiso em prometidas terras?
sabias disso, mar imenso?
e quantos crentes de ti e gentios
tuas águas abraçaram,
tuas águas engoliram,
apenas para que a sorte
lhes fosse provida?
sabias disso, mar imenso?
sabias que aqueles
que te oferendam presentes
de boa fé
são prisioneiros de vidas,
de outras vidas
que sugam as suas vidas?
são reféns de sonhos crus
(aqueles sonhos que
só os desesperados
conseguem sonhar)?
ah...
creio bem que não sabias tal,
mar imenso...
também sabias
que
quando uma dessas tragédias ocorre
há sempre um poeta
ou alguém armado em poeta
que rapa da pena ou do portátil
para lavar a sua merdosa consciência
pretendendo agitar ondas de solidariedades?
sabias disso, mar imenso?
e sabias, também,
que todos esses espoliados
tinham rosto,
filhos,
pais,
irmãos e irmãs?
e todos eles tiveram
vontade de abraçar
os entes queridos
quando a água irrompeu
nas suas goelas
e alagou os seus pulmões...
sabias disso, mar imenso?
não sabias.
claro que não sabias...
és sacana, mar imenso...
mas todos os elementos o são,
assim,
sacanas como tu...
se não, repara:
quem não encontra poesia
nas tuas ondas,
no crepitar do fogo na lareira,
no uivo do vento lá longe?
é bonito, não é?
mas quem consegue
de limpa consciência
achar a beleza da musa
quando os elementos
são atacados
pelas suas fúrias assassinas?
só mesmo os poetas doidos,
mar imenso...
só mesmo os poetas irresponsáveis,
aqueles que esquecem
que há dedo dos homens
a empurrar gente para a morte,
para o degredo,
para a indignidade,
para a dor...
mas dessa dor
não falam os poetas
pois escandalizam
os salões de chá
das metrópoles
e ainda são capazes
de afugentar os croquetes
dos palacetes
para onde são convidados
a abrilhantar aristocracias falidas
e falsos futuros mecenas,
em vernissages onde saciarão
aquilo a que chamam fome,
palavra que usam adrede
em metáforas de barbecue
ou figuras de estilo pioneiras,
sem saberem,
pobres coitados,
que a fome é muito mais
do que baixo teor
de açúcar no sangue
ó mar imenso!...
leva contigo, a banhos, alguns deles,
conjuntamente com quem lhes promove
as suas fúteis existências
e deixa a poesia
liberta dos poetas que calam.
e já que gostas de inundar,
inunda-nos de gente
que saiba ter no peito
aquela coisa que bate
pelo seu par,
pelo seu igual.
percebeste, ó mar imenso?
(c) SPA2015 Carlos Clara Gomes
in "Notas Sobre a Maresia"
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O mar imenso percebe.... A lua é que o desnorteia 😊
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